O sequestro do Varig PP-VJN

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A segurança da aviação aumentou de forma exponencial nos últimos anos, principalmente após os sequestros de aeronaves ocorridas no dia 11 de setembro de 2001. Algumas décadas atrás, eram famosos e frequentes os sequestros de aeronaves, tanto para a obtenção de dinheiro ou vantagens financeiras, como no caso de D.B. Cooper, para terrorismo, como o caso do Air France 8969, em Uganda, ou por motivos políticos, como por exemplo o sequestro do Panam P-BDAD pelos revolucionários paulistas de 1932. Assim sendo, voltaremos algumas décadas para conhecer um dos casos mais impressionantes de sequestros de aeronaves brasileiras de nossa história: o sequestro do Varig 131, ou Varig PP-VJN.

Crédito: Pedro Aragão

O voo

Toda a história que vamos contar ocorreu em 30 de maio de 1972. O voo em questão era planejado do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para o aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, com uma escala na cidade de Curitiba. Na fatídica ocasião, o voo seria operado por uma aeronave Lockheed Electra, de matrícula PP-VJN.

A equipe de cabine era formada pelo comandante César Caldeira, o major Alcir Rebelo, oficial checador do DAC, que estava em treinamento para aquele tipo de aeronave, os engenheiros de voo Pegnucci e Gonçalves e o Primeiro Oficial Edimar.

O voo decolou normalmente como o esperado, o tempo estava limpo, o que prenunciava uma viagem tranquila, como tantas outras dos saudosos electras da varig daqueles tempos. Ao passar pela altitude de 13 mil pés todo o pesadelo se iniciou.

O sequestro

Grenaldo de Jesus Silva entrou na cabine de comando do Electra e anunciou as suas intenções e exigências, ou seja, a aeronave estava sendo sequestrada. Em primeiro lugar, o aparelho deveria retornar ao Aeroporto de Congonhas e quando pousasse no aeródromo, deveria ser entregue ao sequestrador 1,5 milhão de cruzeiros e três paraquedas. Em solo, deveria ser realizado o reabastecimento do avião e garantia de não haver represálias. O prazo para que todas as exigências fossem atendidas se esgotava às 17:30 hs daquele dia.

O sequestrador tinha 31 anos na época e era um dos 200 marinheiros que participaram do motim liderado pelo cabo Anselmo. Pela participação no evento, Grenaldo foi expulso das forças armadas e também foi condenado a uma pena de dois anos e cinco meses de reclusão em 1966 e quando o Varig levantou voo naquele dia, ainda era considerado foragido.

O comandante não esperou e rapidamente iniciou os procedimentos para retornar ao Aeroporto de Congonhas, comunicou-se com o controle de tráfego aéreo e informou que a aeronave se encontrava sob sequestro e repassou as exigências de Grenaldo.

No solo

A chegada do Varig PP-VJN em Congonhas não encerraria o suspense sobre o desfecho daquele sequestro e iniciaria uma fase ainda mais preocupante, a das negociações. O avião foi levado quase à frente da torre de controle do aeroporto para a continuação dos eventos daquele dia.

Os motores permaneceram em funcionamento por exigência de Grenaldo e quando chegou ao destino escolhido pela tripulação, a quantidade de movimento de veículos, pessoas e outras aeronaves nas proximidades do Varig PP-VJN deixou o sequestrador preocupado, fazendo-o ordenar a tripulação que movesse o avião até às proximidades da pista.

A espera pelo desfecho

Grenaldo conversava com os tripulantes falando sempre no plural fazendo com que acreditassem que pudessem haver mais integrantes do grupo. Além disso, alegava ter colocado uma bomba no banheiro da aeronave.

Quando se iniciaram as comunicações entre a torre de controle e a tripulação, Grenaldo se apressou em exigir que o alto falante permanecesse ligado. Os tripulantes atenderam a essa exigência, mas deixaram o volume baixo para dificultar o entendimento das mensagens por parte do sequestrador. Outra ação dos tripulantes foi a deixar o microfone da cabine aberto, o que permitia que a torre ouvisse tudo o que era falado por Grenaldo.

Com a evolução da crise, os pilotos e o Brigadeiro Délio Jardim de Matos, comandante da IV Zona Aérea na época, perceberam que Grenaldo não compreendia boa parte daquilo que era comunicado por não saber o queriam dizer as siglas e jargões da aviação.

Sem conhecer a aviação

Grenaldo não parecia ter um plano racional em relação ao combustível da aeronave pois parecia não perceber que a sua exigência de manter a aeronave com os seus motores ligados faria com que uma nova decolagem fosse inviabilizada com o passar do tempo. Com isso em mente, o Major Rebelo manteve os motores em alta rotação, gastando ainda mais combustível.

O tempo passava e a torre de controle negociava com o sequestrador e tentava ganhar tempo. O dinheiro se encontrava a caminho e os paraquedas estavam sendo retidos em alguma parte da cidade de São Paulo ou já estavam a caminho, mas o trânsito caótico da metrópole impedia a sua chegada, eram afirmações que a torre repassava para bordo do Electra com o intuito de deixar o tempo fluir.

O prazo se esgota

O tempo transcorreu e o prazo final para o atendimento das exigências estava se esgotando. Grenaldo informou, de forma pontual, aos tripulantes de que deviam comunicar o encerramento do prazo aos negociadores. Por certo, o medo dos comandantes era de que o sequestrador passasse a agir de forma violenta ao ver o encerramento do prazo que concedeu a eles.

Electra sob as cores da Varig. Crédito: Rene Francillon

A resposta do controle foi a de que tudo continuava a ser providenciado para Grenaldo e que se sentiam profundamente pesarosos por não poderem cumprir o prazo que havia sido concedido pelo “grupo” de sequestradores.

Nesse momento as autoridades souberam finalmente que se tratava de apenas um sequestrador já que ele não tomou nenhuma atitude que prometera. Ademais, Grenaldo praticamente outorgou mais prazo às autoridades sem consultar mais ninguém.

Liberação dos passageiros

As 18:55 hs da tarde o controle afirmou que os paraquedas e o dinheiro haviam finalmente chegado. Logo depois, a ordem de Grenaldo foi clara: os itens deveriam ser deixados no alto da escada do avião.

Como já era de se esperar, com a passagem do tempo, o combustível foi se esgotando e os motores pararam. Pouco depois das 19 horas, o avião ficou completamente às escuras. Era o começo do fim do sequestro do Varig PP-VJN.

A comunicação foi cortada por meia hora e o comandante solicitou a torre de controle para que fosse deslocada uma unidade geradora de energia para restabelecer as funções do avião. Quando restabelecida a comunicação, foram restabelecidas também as negociações. No entanto, agora o foco da torre de controle era conseguir a liberação dos passageiros em troca do reabastecimento da aeronave.

Grenaldo concordou com a exigência, com a única contrapartida de que os pilotos e o engenheiro de voo permanecessem a bordo. Tudo indicava que a intenção dele era decolar novamente e saltar de paraquedas com o seu dinheiro. Os passageiros foram liberados e, entre eles, ninguém ficou frido, restando apenas o susto após o embarque no Varig PP-VJN .

A ação final

O tempo se esgotava para o sequestrador já que a equipe de solo já sabia que se tratava de apenas um sequestrador e não um grupo como se pensava inicialmente.

Por volta das 23:00 hs o comandante Caldeira informou ao sequestrador que havia a informação de que a porta traseira do avião estaria aberta e era necessário averiguar essa situação. Com a ideia de solucionar esse problema, Grenaldo conduziu o engenheiro de voo até a localização da porta com a pistola apontada para as suas costas.

Enquanto isso, o restante dos tripulantes já planejavam realizar uma ação arriscada: assim que o engenheiro entrasse de volta na cabine de comando do Electra, eles fechariam a porta, deixando o sequestrador preso na cabine de passageiros. É importante lembrar que, nesse momento, os passageiros já haviam saído do avião. O plano deu certo e os tripulantes que estavam na cabine desceram de forma rápida por uma corda. Contudo, o engenheiro de voo não conseguiu sair e permaneceu com Grenaldo.

Depois que o interior estava livre, forças de segurança pertencentes ao DOI-CODI e ao Para-Sar lançaram duas bombas de gás lacrimogêneo no interior da aeronave. Logo depois, encontraram o ex-marinheiro Grenaldo morto no piso. O laudo oficial: Suicídio.

Após o sequestro

A mídia passou a cobrir o acontecimento e questionar se o sequestrador conseguiria saltar de paraquedas do Electra com 75 quilos de dinheiro. Apesar de ser um salto difícil e muito perigoso, se a altitude e a velocidade fossem controladas, seria possível que Grenaldo sobrevivesse.

Grenaldo foi enterrado como indigente na conhecida vala comum do Cemitério de Perus. Local onde foram enterrados várias pessoas assassinadas por forças do estado durante a Ditadura Militar do Brasil.

Vala do Cemitério de Perus

Em 2003, novas testemunhas vieram a público em uma matéria da Revista Época que afirmava que o sequestrador foi executado pelas forças de segurança.

O sargento especialista José Barazal Alvarez era um dos controladores de tráfego aéreo durante o período da crise do voo Varig PP-VJN e afirmou, na época, que teria visto dois ferimentos de bala no corpo de Grenaldo e que teria uma carta junto a ele, endereçada a seu filho. O seu testemunho era importante pois ele tinha sido designado para retirar os pertences do falecido sequestrador do interior do avião.

O engenheiro de voo também afirmava que tudo não teria ocorrido como as autoridades da época afirmaram. De acordo com ele, o cadáver do sequestrador tinha levado um tiro na altura de sua nuca. Assim sendo, esse fato acabava invalidando a afirmação de suicídio.

Conclusão

Em agosto de 2004, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Governo Federal considerou que Grenaldo foi executado pela Ditadura militar brasileira.

O Varig PP-VJN passou a ser considerado um avião mal assombrado pelas equipes de voo e de solo da Varig. Passaram-se a ser relatados gemidos e lamentos vindos de seu interior, além de outros fenômenos bizarros.

Após cumprir sua carreira na Varig, o avião foi repassado para outras companhias. Por fim, se acidentou em dezembro de 1997, em voo cargueiro com 6 toneladas de excesso de peso.

Isso é tudo por hoje e assim sendo, até a próxima!!

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Veja também: O Acidente do Voo Varig 254O misterioso desaparecimento do VARIG 967

* Salvo aquelas que são de domínio público, todos os direitos autorais sobre as obras audiovisuais deste artigo pertencem aos seus proprietários.

Fontes (pesquisa e/ou material audiovisual): Plane Logger, Aviões e Músicas, O Povo, Desastres Aéreos, Rodrigo Varig