Qual foi a primeira quarentena da história??

Em tempos de Covid 19, quase todos os países do mundo, em maior ou menor grau, recomendaram ou impuseram a quarentena a seus cidadãos, com o intuito de “achatar” a curva de contágio e deter os efeitos da doença. Mas nesse momento, muitas pessoas podem se perguntar: Qual foi a primeira quarentena da história. Então, vamos viajar até as terras distantes da Croácia para responder essa pergunta??

A primeira quarentena

Desde os tempos bíblicos existem menções diversas a isolamento de grupos de indivíduos que possuíam determinados tipos de doenças, como por exemplo a hanseníase. Contudo, foi somente durante o período conhecido como a Peste Negra que se instituiu a primeira quarentena organizada da história. Na atualidade, a cidade que organizou essa quarentena se chama Dubrovnik, é banhada pelo Mar Adriático e possui uma população de pouco menos de 50 mil habitantes.

Contudo, no período no qual a Terra foi acometida pela Peste Negra, o local era conhecido como a República de Ragusa e estava sob o domínio de Veneza. Inclusive, é do dialeto veneziano que vem o nome quarentena: O nome provem da palavra “quarantena”, que designava exatamente o período de quarenta dias pelos quais os marinheiros que chegavam de outros locais deveriam ficar isolados antes de poder entrar nas cidades comandadas por Veneza.

Mas a quarentena não nasceu assim, já organizada e pronta para ser usada em favor da saúde dos moradores de Ragusa. Ela se iniciou como o “trentino” que, como você já deve ter imaginado, era um período de trinta dias de isolamento para os marinheiros.

Voltando a cidade de Ragusa

Pois bem, como todos sabemos, a peste negra se desenvolveu nos períodos de 1346 a 1353 e Ragusa foi atingida em cheio, já nos primeiros momentos, pela epidemia que assolava a Europa. Além disso, a peste nunca foi embora de vez, sempre havia um surto localizado, que poderia se tornar mortal, dentro de uma cidade murada e lotada de pessoas que viviam em condições não muito higiênicas.

Com isso, o conselho da cidade decidiu que todos os ocupantes de navios que porventura viessem a atracar no porto de Ragusa deveriam cumprir um período de isolamento de 30 dias em ilhas próximas à cidade. A regra deu certo e os números de mortes se reduziram muito e mesmo com o fim da Peste Negra, o isolamento continuou de forma estrita, pois ainda se registravam surtos de peste bubônica e doenças assemelhadas de forma localizada.

Em 27 de julho de 1377 foi emitido um decreto pelo Grande Conselho da República, órgão deliberativo e diretivo de Ragusa, que dizia que os visitantes que vinham de terras suspeitas deveriam se isolar nas ilhas de Mrkan, Bobara e Supetar. Inicialmente, o período era cumprido ao ar livre, contudo, as condições de tempo eram severas e podiam causar mortes aos isolados. Por isso, foi idealizada a construção de vários barracões de madeira para abrigar essas pessoas. A madeira tinha uma vantagem nessa situação: os barracões poderiam ser queimados em caso de um surto na ilha, evitando a epidemia.

A quarentena restritiva 

Em 1397 as regras em Ragusa ficaram ainda mais restritivas, pois se estabeleceu uma multa de 100 ducados para aqueles que desobedecessem as regras impostas. Aqueles que não pagassem a multa seriam presos e sofreriam castigos corporais. Além disso, foram criados três cargos de “Kacamorti”, pessoas deveriam ser responsáveis pelo monitoramento das medidas de quarentena. Além disso, o mesmo decreto proibia a importação de mercadorias do campo por toda a duração de surtos epidêmicos de peste.

No século XV a quarentena se tornou mais organizada: Os edifícios de isolamento foram transferidos para perto da cidade, para evitar o uso por inimigos. Além disso, eram empregados um escrivão, dois guardas, coveiros, pessoas responsáveis pela limpeza, um padre, barbeiro e vários kacamorti. Em 1430, algumas casas passaram a ser utilizadas para abrigar os isolados. Em 1448, por ordem do senado veneziano, o período de isolamento passou a ser de quarenta dias. Já em 1457, uma instituição para a quarentena e uma igreja católica foram construídos por Mihoč Radi nas proximidades da Praia de Danče. Logo depois de sua conclusão, foi possível o abandono das instalações nas ilhas próximas.

O grande surto de 1526 e a construção das enfermarias de Lokrum e de Ploče

Ilha de Lokrum

Mas todos esses cuidados não evitaram que, em 1526, a cidade foi assolada por outra epidemia de peste bubônica, que matou grande número de pessoas. Esse episódio foi tão brutal que até mesmo o conselho da cidade fugiu do local, deixando a população à sua própria sorte.

Com a passagem do surto e levando em consideração a necessidade de evitar um novo acontecimento tão mortal na cidade, foi construída a enfermaria de Lokrum, levando esse nome pela ilha onde se localizava. A construção se iniciou em 1533 e apesar de concluída, a instalação nunca chegou a ser usada para a realização de quarentena.

Em 1590 se iniciou a construção de outra instalação parecida, a enfermaria de Ploče, que foi concluída em 1642. O prédio era enorme, tinha um total de 10 edifícios de vários andares. Desses, 5 eram destinados para mercadorias que entravam na cidade, que também passavam por uma espécie de quarentena e 5 para pessoas. De cada lado da área onde ficavam os prédios destinados às pessoas, haviam torres para os guardas que eram responsáveis pela segurança do complexo. Além disso, havia um alojamento para o enviado pelo Império Otomano que atuava como juiz dos súditos otomanos que estavam visitando Dubrovnik (Nessa época, a República de Ragusa havia se tornado um estado tributário do Império Otomano).

Enfermaria de Ploče

O fim da quarentena

A República de Ragusa caiu em 1808, após o seu território ser anexado pelo Reino Napolêonico da Itália. Contudo, a quarentena se estendeu até meados do século XIX, quando um incêndio danificou a enfermaria de Ploče, a única em funcionamento na cidade. O último surto de peste foi registrado entre os anos de 1815 a 1816.

De qualquer forma, a iniciativa tomada pela cidade de Ragusa é registrada como a primeira quarentena organizada da história. Além disso, foi a mais duradoura e podemos dizer que teve bons resultados, quando comparada a outras cidades que não a fizeram ou a fizeram de forma desorganizada.

Isso é tudo por hoje e assim sendo, até a próxima!!

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Fontes: Biologia Net, Aventuras na História, UOL, BBC, Spotting History, Revista Viajar Pelo Mundo